Melodia, 25/06/2011
Pr Zwinglio Rodrigues
Sem Ambiguidades
“Assim como no meio do povo surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.” 2 Pedro 2:1
Li alhures uma tentativa de explicação desta referência bíblica a partir de uma perspectiva calvinista. Tal tentativa tinha como propósito demonstrar que não se pode adotar o versículo em questão como uma prova arminiana sobre a expiação ilimitada. O autor do texto calvinista que li vê 2 Pedro 2:1 como um texto altamente ambíguo e, por isso, nada definitivo.
De fato, se formos analisar 2 Pedro 2:1 com lentes calvinistas ambiguidades vinculadas a esse texto não faltarão. No entanto, se deixarmos que o contexto histórico e que uma exegese sem malabarismos lance as luzes devidas para a compreensão dessa passagem as pseudos ambiguidades não passarão de proposições marginais.
Motivo e Propósito
Para uma boa interpretação de um texto bíblico é fundamental levar em consideração o contexto histórico dentro do qual o escrito fora forjado. Esta é uma regra de interpretação básica. Negligênciá-la pode ser fatal.
O autor ao escrever a 2 epístola de Pedro tinha como alvo atacar um certo tipo de gnosticismo libertino que estava invadindo a igreja. É exatamente no segundo capítulo que o autor começa a desferir seus golpes apologéticos contra os falsos mestres propositores da heresia gnóstica.
A Heresia Gnóstica
Em que consistia essa heresia? Ela era de cunho soteriológico.
Os gnósticos acreditavam que o homem era um ser caído que precisava voltar-se para Deus. Porém, para eles, a maneira do homem voltar-se para Deus só era possível por intermédio de, não um, mas de diversos mediadores que seriam seres angélicos de segunda ordem.
Para os mestre gnósticos Jesus Cristo era um desses seres mediadores – aeons – que em conjunto com os demais proporcionava condições ao homem caído de encontrar a salvação. Assim sendo, dentro desse breve arcabouço soteriológico, Jesus Cristo figura como um salvador nada suficiente. Sua expiação não tem valor salvífico.
Bom, dito essas coisas, voltemos nosso olhar para o capítulo 2, versículo 1.
Frente ao breve, mas suficiente contexto histórico destacado, preciso estabelecer algumas conexões.
1º) Quem é o Soberano Senhor destacado no versículo?
Ora, se os gnósticos estavam reduzindo Jesus Cristo à uma classe de emanações divinas com os sus ensinos contrariando assim a pregação evangélica comum de que Ele é o Senhor, o Soberano, esse Soberano Senhor referido pelo autor canônico só pode ser o próprio Jesus Cristo. É Ele, e seu sacrifício vicário, o alvo dos hereges. É a favor dEle que brota a defesa apostólica.
Os gnósticos admitiam um governante absoluto que salvava por meios dos vários mediadores. O escritor canônico, por sua vez, apenas admitia um Salvador que em contraste com o que constava no conteúdo soteriológico dos gnósticos, era Soberano, Senhor, o próprio Deus e não um aeon.
Admitir que a designação Soberano Senhor – isso sem uma preocupação com o pensar calvinista – fala do próprio Jesus Cristo não labora em nenhum erro interpretativo porque Ele é o próprio Deus. Tomando conhecimento do motivo e do propósito da escrita de tal epístola reforça-se lucidamente essa compreensão. Sem contar que o próprio versículo 1 com a palavra resgatou, e o versículo 2, com a frase “infamado o caminho da verdade” (sobre o Caminho leia At 9:2 e Jo 14:6) dão todo o suporte hermenêutico para de pronto admitirmos que o Soberano Senhor é a pessoa de Jesus Cristo.
2º) Entendendo o uso da palavra resgatou.
A palavra grega traduzida é agoradzo. Ela pode ser traduzida também como comprar, redimir (veja aqui). Então, o uso de agoradzo no verso 1 indica que os falsos mestres tinham sido resgatados, comprados, redimidos por Jesus Cristo, Aquele mesmo que eles agoram negam devido à adoção de uma soteriologia estranha ao ensino apostólico.
É sabido tanto por calvinistas como por arminianistas que é o sangue de Jesus Cristo que compra, resgata, redimi o homem – a seguir, alisto algumas referências onde a palavra agoradzo aparece em um sentido soteriológico: 1Co 6:20, 7:23; Ap 5:9.
Portanto, o Soberano Senhor que os dissimuladores estavam renegando era o próprio Jesus Cristo que os tinha resgatado das trevas nas quais eles novamente se entremeteram.
Tudo isso é muito claro! Não precisamos apontar ambiguidades no texto quando ele mesmo se demonstra explícito e conclusivo. A não ser que se queira ajustá-lo às configurações teológicas pessoais. Aí a conversa já é outra.
O contexto histórico e o caminho exegético desprovido de uma teia de elocubrações calvinistas de maneira alguma torna tal Escritura aqui analisada difícil de ser entendida.
Vale lembrar aqui que os reformadores afirmavam uma absoluta certeza quanto a perspicuidade das Escrituras. Qualquer “leigo” que conheça o ensino de que só Jesus Cristo salva [resgata, compra, redimi], ao ler 2 Pedro 2:1 saberá sem pestanejar que é disso que está falando essa passagem.
É importante dar um destaque aqui à palavra grega despotes.
Traduzida, essa palavra significa senhor. Alguns calvinistas advogam que o uso dessa palavra aqui indica que o Soberano Senhor não é Jesus Cristo, mas o Pai. Eles dizem isso porque despotes nunca é usada no novo testamento para referir-se a Jesus Cristo.
Judas, versículo 4, escreveu:
“Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.” Almeida Revista e Atualizada
A frase sublinhada chama Jesus Cristo de Soberano Senhor e a palavra grega usada para Soberano é exatamente despotes.
Concordam com essa tradução a Almeida Atualizada, a Tradução Ecumênica da Bíblia, a Edição Contemporânea e a Nova Versão Internacional.
Mas, é verdade que os intérpretes dividem-se quanto à questão se a melhor tradução seria entender que despotes se refere ao Pai ou a Jesus Cristo.
Mesmo que não encontremos no novo testamento o uso de despotes apontando para Jesus Cristo, não seria nada absurdo termos em 2 Pedro 2:1 o uso de tal palavra referindo-se pela primeira vez a Ele.
O Comentário Bíblico Vida Nova, um comentário de linha bastante conservadora, diz:
“Soberano Senhor é aplicado a Cristo somente aqui e em Judas 4, mas em Lucas 2:29; Atos 4:24 e Apocalipse 6:10.” (2009, p. 2086)
E mais: alguém poderá dizer que o Soberano Senhor de Atos 4:24, o Criador do céu e da terra, não é o mesmo Criador de Colossenses 1:16 que diz: “… Tudo foi criado por meio dele [Jesus].”?
Outra coisa: lembrando do contexto histórico que circundava os destinatários da 2 espístola de Pedro, quero dizer que os gnósticos não apenas negavam a suficiência da expiação de Jesus Cristo, mas negava-O como sendo o despotes, o Soberano, e a defesa do escritor visava também demonstrar que Jesus Cristo não era uma emanação divina, mas que Ele era o próprio Deus.
A menção a Deus, o Pai, no versículo 4, nesse contexto, certamente visa expor a associação divinal entre o Pai e o Filho. Uma prova disso está no verso 9 que fala do Senhor, referindo-se ao Pai, usando a palavra grega kurios, vocábulo fartamente usado no novo testamento para falar de Jesus Cristo como sendo o próprio Deus.
À guisa de conclusão, é preciso dizer que 2 Pedro 2:1 é um texto que inequivocamente depõe contra a expiação limitada. O texto é ênfático quando diz que os mestres gnósticos tinham sido comprados pelo Soberano Senhor Jesus Cristo que eles passaram a renegar. Se o texto diz que eles foram redimidos ou resgatados é porque de fato foram. Eu não preciso duvidar do que está escrito e nem tampouco preciso procurar fugir da objetividade da letra. Isso talvez devesse ser feito se a posição calvinista da expiação limitada fosse uma premissa irretorquível nas páginas da Bíblia, só que não é assim que a banda toca.
Mais ainda poderia ser dito (por exemplo: poderíamos analisar os versículos 20-22), contudo, por falta de espaço, vou ficando por aqui.
Por Pr. Zwinglio Rodrigues