Melodia, 13/04/2010
Gutierres Siqueira
Triunfalismo e Antropocentrismo
O modo de vida gospel, de inserção na modernidade, de busca de aproximação com expressões culturais populares e de relativização da tradição de santidade puritana, é alimentado pela interpretação teológica do “aqui e agora”, da capacidade de consumir como sinal de comunhão com Deus, do direito de reinar com Deus que elege seus adeptos como “príncipes”. Magali do Nascimento Cunha, jornalista metodista [1].
No contexto protestante a música é um assunto controvertido, sendo que várias problemáticas são levantadas, como ritmos, coreografias, instrumentos musicais etc. Por exemplo, algumas igrejas toleram o forró e demonizam o rock; outras adotam coreografias, mas diz que o crente não dança; há ainda igrejas que só usam instrumentos clássicos, enquanto entre alguns neo-puritanos nenhum instrumento é usado. Mas o texto em apreço não tem a pretensão em discutir esses assuntos, mas sim a qualidade das letras. Infelizmente as letras com expressões de adoração são cada vez mais raras, sendo substituídas por mensagens de auto-ajuda, triunfalismo [2] e antropocentrismo [3]. As igrejas pentecostais clássicas estão cheias dessas letras descartáveis.
Triunfalismo e Antropocentrismo
É preocupante a situação da musicalidade pentecostal nos últimos anos. O triunfalismo e o antropocentrismo têm reinado nas letras. São comuns expressões surradas, como: "Você é mais que vencedor", "Deus vai operar em sua vida", "Sua vida vai mudar", "Você vai conquistar suas vitórias", "Hoje você será abençoado" etc. Pegue os cadernos de hinos dos grupos musicais de sua igreja e você verificará inúmeras letras com enfoque no homem e no seu bem-estar.
O enfoque comercial da musicalidade pentecostal tem gerado inúmeras distorções, principalmente no foco das músicas. Ignorando o chavão, muitos músicos cantam o que a massa consumidora quer ouvir. Uma análise crítica das letras mostra que são raras as músicas que estão voltadas para letras de exaltação e adoração a Deus. Muitas letras que ainda citam Deus ou alguma passagem bíblica estão na verdade destacando aspectos de um Abençoador dos homens, sendo uma sutil forma de antropocentrismo.
A música cúltica não deve servir para satisfação do homem e os seus desejos egoístas, mas sim para honra e glória do Senhor. A satisfação já começa pelo meio rítmico, pois são sempre equivalentes a cultura local, o que não é necessariamente errado, mas ainda assim alimentam essa produção de satisfação.
Culto? Cadê?
Um culto antropocêntrico em suas músicas, pregações e orações é idolatria ou uma auto-idolatria. Ora, são músicas que não exaltam Deus, mas proclamam um super-crente; são pregações que esquecem da exposição bíblica e só falam em promessas; orações que não buscam a face do Altíssimo, mas simplesmente transformam-se em dividendos. Puro paganismo no meio evangélico brasileiro. O sentido do culto, que é cultuar a Deus, perdeu seu sentido!
Espiritualidade doentia
Nesse ritmo dominical as ovelhas têm sido cada vez mais privadas de uma boa alimentação, para dar lugar as piegas mensagens de auto-ajuda. A situação está insuportável, pois a cada dia essas mensagens têm ganhado mais espaço nos púlpitos. Crentes doentes por falta de devida alimentação têm enchido as igrejas em uma busca frenética por bênçãos e mais bênçãos. Todo o contexto do culto alimenta essas falsas esperanças, pois o Evangelho de Jesus Cristo nunca expressou triunfalismo, mas o contrário. O problema é falta de leitura bíblica!
Conclusão:
A maior lição dos hinários protestantes, como Salmos e Hinos, Cantor Cristão e Harpa Cristã são justamente a elaboração doutrinária e teológica das letras. É perceptível o cuidado dos compositores e o entendimento que os mesmos tinham das Escrituras. Infelizmente hoje, por causa da mercantilização do cântico evangélico, qualquer um é cantor ou compositor gospel.