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Sexta, 10 de Setembro de 2010
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Melodia, 26/02/2010

Pr Zwinglio

O Que é Heresia?

Pr Zwinglio

Muitos são os que falam sobre heresia, no entanto, me parece que são poucos os que sabem definir este vocábulo a partir da abrangência bíblica dispensada ao mesmo. Via de regra, a compreensão primeira desta palavra está associada às instituições religiosas que disseminam ensinos heterodoxos. Fazer esta associação não está errado. Contudo, observando o escopo neotestamentário, o que mais se constata é que a airesis (palavra grega para heresia) está mais em conexão com a vida interna da Igreja do que com outras religiões. Também, ao estudarmos o Novo Testamento, notamos que a aplicação da palavra heresia extrapola a idéia de falsos ensinos.
A palavra aireses no Novo Testamento, em sua forma nominal, tem o sentido de facção, partido (Champlin, 1983, p. 443). Já em sua forma verbal, ela significa escolher, preferir (ibidem, p. 178). É a partir destas abordagens gramaticais que pretendo salientar as duas principais situações onde a Igreja costumeiramente se vê às voltas com a heresia.
A primeira situação que quero destacar têm haver com a ação dos falsos mestres dentro da Igreja e suas escolhas e preferências por heresias destruidoras. Em sua segundo epístola, Pedro adverte à Igreja que “[...] haverá falsos mestres, os quais introduzirão heresias destruídoras [...]” (2:1). As escolhas e preferências destes sujeitos aos quais Pedro faz referência são os falsos ensinos, as falsas doutrinas.
A advertência do apóstolo neste caso é contra o gnosticismo, um sistema teológico que contrariava os postulados de fé apostólicos. Algumas de suas heresias eram a negação da interpretação literal das Escrituras; a não ressurreição do corpo e a impossibilidade da encarnação de Cristo. Os gnósticos foram uma praga que em muito perturbou a vida da Igreja primitva. Mas, graças ao Soberano Senhor, a Igreja prevaleceu diante dos desafios impostos pelo sistema inimigo que estava presente em suas entranhas.
É um fato que a Igreja hoje têm sido “assolada” por ensinos heréticos. Certamente, ninguém nega isso. São os ensinos legalistas; são os ensinos sincretistas e místicos; são os ensinos gananciosos que visam o lucro; são os ensinos que são mais fiéis às tradições denominacionais do que às Escrituras, entre outros. Ter que conviver com os falsos mestres e suas heresias, parece ser uma vocação da Igreja (Mt 13:40; 2Co 11:13; Gl 3:1-3; Cl 2:16-17, 20-22; 1Tm 4:1-3; 2Tm 2:26; 2Pe 2:1; 1Jo 4:1; Jd 4, 11-13; Ap 2:6, 14, 20).
Todavia, batalhar “diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3), também é uma vocação da Igreja. Não ficar passiva diante das incursões doutrinais dos Balaãos (Jd 11), dos que falam mentiras (1Tm 4:2), dos falsos mestres (2Pe 2:1), é um dever da Igreja, “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3:15), que precisa ser levado a sério.
Nesse momento escatológico em que vivemos, onde muitos já se esfriaram no amor (Mt 24:12), onde alguns têm apostatado da fé (1Tm 4:1), onde muitos já não suportam a sã doutrina (2Tm 4:3), é fundamental que ecoem vozes proféticas que preguem a Palavra, que corrijam os refratários e que exorte-os com toda longanimidade e doutrina (2Tm 4:2).
O segundo modo particular da Igreja se envolver com a heresia é através das facções, dos partidos. Paulo disse: “E até importa que haja entre vós facções (aireses, no grego), para que os aprovados se tornem manifestos entre vós” (1Co 11:19). Champlin (1983, p. 17) diz que as palavras “até importa” foram ditas ironicamente. A rigor, a Igreja não precisa de facções para que os seus membros evidenciem-se com uma práxis cristã piedosa.
A igreja de Corínto foi marcada pelo espírito faccioso. Nos capítulos 2:12 e 3:3, 22, o apóstolo dos gentios ataca severamente as ligas partidárias existentes ali. A razão desses ataques são óbvios: os partidos, as facções, são produtos dos ciúmes e os frutos produzidos por eles são as intrigas, as disputas, a fragmentação da unidade eclesial. A palavra apostólica, então, orienta aquela igreja dizendo que formar partidos é andar segundo os homens (1Co 3:3) realidade que é oposta ao ideal cristão de se andar no Espírito (Gl 5:16).
Contemporaneamente falando, é inegável que o espírito partidarista de Corínto é visto entre nós. Inclusive, não tenho dificuldades em dizer que a presença deste espírito (não estou me referindo à uma entidade e sim à um disposição) na vida da Igreja hodierna é mais aguda e letal visto estarmos no tempo escatológico chamado de a “última hora”.
Para mim, a Igreja atual está dividida da mesma maneira que estava a igreja de Corínto. Nesta comunidade, haviam quatro partidos com nomes e proposições fixadas (1Co 1:12), eram eles: o partido paulino, o partido apoloniano, o partido petrino, e o partido cristão. A classificação de cada um desses partidos, segundo os estudiosos, pode ser assim evidenciada (os comentários a seguir também são meus):

1. O partido paulino ou partido da liberdade (seguidores de Paulo).

Obviamente, os que eram do partido da liberdade, não eram libertinos. Os que compunham esta facção eram os gentios convertidos que mais se identificavam com Paulo do que com qualquer outra liderança. Esses crentes eram crentes que ficavam do lado do apóstolo quando este estava sendo atacado pelos opositores que questionavam a sua autoridade apostólica.
Colocar-se ao lado de alguém legitimamente ordenado pelo Senhor e que está sendo vítima de injustiças não é uma atitude que mereça reprimenda. Todavia, aqueles crentes extrapolaram sua fidelidade à Paulo a tal ponto que eles acabaram por ofuscar o nome de Cristo.
Hoje em dia, por causa dos veículos midiáticos, são muitos os líderes do povo do Senhor que tem ganhado projeção nacional e internacional. O cuidado para não supervalorizá-los em detrimento da imagem do Senhor (“importa que ele cresça e que eu diminua”) deve ser um cuidado constante dos membros do Corpo. O antropocentrismo não pode por no canto o cristocentrismo. Infelizmente, a idolatria não tem sido um privilégio apenas dos pagãos.
Hoje na Igreja, se idolatra grupos musicais, teólogos, cantores, pregadores, escritores e etc. Isso não é matéria desconhecida. Já a muito se fala de personalidades evangélicas quase que como semi-deuses. Há esse grupo, esse partido, na vida da Igreja atual. Nada há de errado em honrar e admirar àqueles que tem demonstrado uma vida cristã autêntica e poderosa no exercícios de seus ministérios. Porém, é inaceitável que o nome do Senhor Jesus Cristo seja enquadrado em um segundo plano. Quem faz isso, gera conturbação e divisão na vida da Igreja.

2. O partido apoloniano ou partido intelectual (seguidores de Apolo).

Os partidários de Apolo eram os crentes que tinham preferência pela erudição, pela prédica mais apurada. Nada há de errado em se buscar ouvir ministrações bem elaboradas, em se admirar aqueles que são possuidores de uma mente brilhante, exercitada no conhecimento teológico, doutrinal e filosófico. Mas, quando estas inclinações ganham contornos de arrogância e de isolamento daqueles que não comungam da mesma prioridade, toda a legitimidade daquela predileção se esvai e se torna terrenal e diabólica.
Será que existem hoje teólogos cristãos arrogantes? Será que os títulos acadêmicos de muitos não os têm isolado dos irmãos dados, digamos, ao senso comum? Será que não existem cristãos hoje que preferem estar ao lado daqueles que têm os anéis nos dedos em detrimento de uma comunhão mais ampla com o Corpo de Cristo? Será que a ditadura acadêmica de alguns teólogos cristãos não têm sufocado alguns dos “pequeninos”? Será que o partido intelectual de hoje não tem perturbado a unidade orgânica da Igreja?

3. O partido petrino ou partido judaizante (seguidores de Cefas).

Os crentes que faziam parte deste partido eram os adeptos do tradicionalismo. O Dr. Charles C. Ryrie (Bíblia Anotada, p. 1434) diz-nos que eles tinham preferência por um líder que tinha andado com Cristo. Ser um tradicional não é pecado. Mas, fazer da tradição uma bandeira que separa, que segrega, é sim pecado. Usar a tradição de maneira sectária  é pecado. Por causa destas ênfases dos tradicionalistas da igreja de Corínto é que eles foram repreendidos por Paulo.
Será que as tradições das atuais denominações protestantes e evangélicas não são separatistas e sectárias? Elas mais aproximam o povo do Senhor ou o dispersa? Elas franquiam uma maior unidade do Corpo ou são motivos de distanciamentos? O que elas constróem: pontes de aproximações ou muros de separação? Existem os partidos-tradicionalistas-denominacionalistas na Igreja deste tempo em que vivemos?

4. O partido de Cristo ou partido exclusivista (aqueles que diziam, “sou de Cristo”).

Os adeptos desse partido eram os “superespirituais”. Eram os crentes que não seguiam a “meros” líderes humanos, mas que também não queriam comungar nem com esses e nem com os que seguiam-nos. Este tipo de partido talvez seja o pior de todos porque os que a ele aderem supõem possuir uma espiritualidade incontestável.
Vaidade e arrogância espiritual é o que não falta dentro da Igreja pós-moderna.
Se o indivíduo não fala em línguas estranhas ele não é batizado no Espírito Santo e nem é espiritual como são os que falam. Se fala em línguas estranhas, é carnal, portanto não é espiritual como aquele que não crê na atualidade do dom de línguas. Se o crente está doente e não tem riquezas é porque não têm fé, logo sua espiritualidade é espúria. Se o sujeito é próspero e fala de prosperidade, há quem diga que ele é um crente secularizado, não espiritual, que está mais preocupado com as coisas da terra do que com as do céu.
O partido da espiritualidade exclusiva tem suas células em todos os setores da Igreja dos nossos dias. E desta maneira, as coisas vão caminhando.
Infelizmente, existem duas coisas que os exclusivistas não conseguem entender: 1- que é pela reprodução do caráter de Cristo no sujeito que evidencia-se a autêntica espiritualidade na vida deles (Gl 2:20), e, 2- que o Senhor conhece os que são espirituais e que lhe pertencem (2Tm 2:19).
Finalmente, como foi possível notar, quando o Novo Testamento trata da palavra heresia, ele levanta a questão mais como uma particularidade da vida eclesial do que do mundo e seu sistema religioso. Não que do mundo não brotem as heresias. Muito pelo contrário!
Mas, eu entendo que ao se querer falar sobre o assunto, o mais recomendável é que a Igreja olhe primeiramente para dentro de si ao invés de ficar apontando para os que são de fora. Também concluo que, um maior esclarecimento deve ser dado ao povo do Senhor sobre não serem apenas os falsos ensinos, heresias. Precisa-se desconstruir este conhecimento restrito. Ensinar ao povo que tudo o que caracteriza um espírito faccioso e partidarista na vida da Igreja é também uma heresia, é uma tarefa urgente. Espero que os líderes comecem por eles mesmos a construção de uma mentalidade de unidade segundo a desejada pelo Espírito Santo (1Co 1:10), pois a divisão da Igreja em facções é heresia, e heresia é obra da carne (Gl 5:20).
 

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