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Sábado, 04 de Setembro de 2010
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Melodia, 15/12/2009

Pr Zwinglio

Paulo e o Túmulo Vazio

Pr Zwinglio

No debate sobre a historicidade da ressurreição de Jesus Cristo, crermos, ou não, que o apóstolo Paulo tinha o conhecimento do túmulo vazio faz toda a diferença. Estudiosos que negam a ressurreição como um fato histórico afirmam que o apóstolo desconhecia qualquer antiga narrativa de um túmulo vazio.
O erudito Geza Vermes diz:
“A tradição transmitida por Paulo ignora o túmulo vazio” (2006, p. 208).
Seguindo a mesma convicção, J. M. Borg e J. D. Crossan afirmam:
“[...] Paulo não enfatiza um túmulo vazio. Pelo contrário, ele baseia sua confiança na ressurreição de Jesus, nas aparições de Jesus aos seus seguidores e, em última instância, no que ele próprio, Paulo, entende como visões.” (2007, p. 253).
Esses e outros teóricos advogam que as narrativas do túmulo vazio não passam de acréscimos aos textos evangélicos, ou seja, são lendas inseridas no contexto da fé.
No entanto, é possível encontrarmos pistas que podem fazer-nos crer que o apóstolo Paulo conhecia o túmulo vazio. Estudiosos como William Lane Craig, Martin Hengel e N. T. Wright defendem tal possibilidade.
Antes de apontar algumas razões porque creio que Paulo conhecia o túmulo vazio, é necessário que seja tecido um breve comentário sobre o Seminário de Jesus movimento do qual faz parte John Dominic Crossan.
Seminário de Jesus
Trata-se de uma coalizão de eruditos que decidiram empreender esforços para reduzir à insignificância o Jesus Cristo bíblico. O seu fundador foi Robert Funk. Para ele, Jesus provavelmente seria o primeiro comediante judeu. Ao lado de Funk, surge, como co-fundador do Seminário de Jesus, John Dominic Crossan. Ele é um destacado teólogo que tem esforçado-se por levar a doutrina de ressurreição de Cristo à ruína. Hank Hanegraaff (2005, p. 46) cita algumas palavras de Crossan ditas à Revista Time:
“As narrativas do sepultamento e ressurreição foram recente criação ilusória de fatos que se desejaria fossem realidade. O cadáver de Jesus seguiu o caminho dos corpos de todos os criminosos abandonados: provavelmente coberto apenas com refugo, vulnerável aos cães selvagens que vagavam a terra devoluta das áreas de execução.”
Em seus estudos dos textos evangélicos, a metodologia que o Seminário de Jesus usa para determinar o que é “autêntico” ou não, traz, em seu bojo, o descarte imediato de toda profecia e todo milagre. Ou seja, o antisobrenaturalismo faz parte do escopo metodológico e essa realidade compromete suas análises, pois, apriorísticamente, a ressurreição de Jesus não deve ser levada em conta, mas preterida.

Na concepção desses teóricos “os que discordam de suas pressuposições são estereotipicamente considerados retardados a nível intelectual e reduzidos a viver na Idade Média” (Hanegraaff, 2005, p. 47).
Na verdade, retardados a nível intelectual são os que alicerçam-se sobre investigações e métodos que descansam, supostamente, em confiáveis métodos históricos e literários objetivos. O problema que surge nesse cenário é que alguns estudiosos, em suas pesquisas historiográficas, aproximam-se de seu objeto de estudo repletos de preconceitos não históricos, mas filosóficos. Em outras palavras, são as convicções metafísicas que determinam os resultados “históricos” e não os fatos, as evidências.
Clarck Pinnock diz:
“Enquanto ele (o naturalista) não admitir a possibilidade de um mundo teísta, nenhum acúmulo de provas convencerá o homem moderno de que a ressurreição não é um absurdo.”
Bom, com aquela tendência metodológica, a ressurreição de Jesus Cristo não pode ser outra coisa que não um mito conforme crê Crossan.
Porém, outros ataques do Seminário de Jesus contra a ressurreição de Jesus Cristo [além do antisobrenaturalismo] conforme descrita nos Evangelhos são levantados nessa busca de sepultamento dessa crença cristã fundamental. A negação do conhecimento paulino do túmulo vazio é mais um desses ataques.
Paulo e o Túmulo Vazio
Um dos acontecimentos históricos mais veementes que favorece a aceitação da ressurreição corporal de Jesus Cristo é a transformação de Paulo. A sua conversão foi um milagre!
Falar sobre Paulo e o túmulo vazio é importante porque as cartas paulinas foram escritas muito cedo.  Por exemplo: Romanos foi escrita entre 55-58 d.C.; já 1 Coríntios foi escrita em 56 d.C. Com essas datas, temos entre 26 e 28 anos de distância entre a escrita delas e a condenação, crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ou seja, do ponto de vista histórico, temos uma distância cronológica ínfima.
Alguns estudiosos tem compreendido que a afirmação “ressuscitou ao terceiro dia” de 1 Coríntios 15:4 é uma prova de que Paulo conhecia o túmulo vazio.
Há mais um texto bíblico que mostra claramente que Paulo tinha a informação de que o túmulo estava vazio e nisso acreditava. Antes de apontá-los, é preciso comentar um pouco 1 Coríntios 15:1-7.
Um Credo Pré-Paulino
1 Coríntios 15:1-7, segundo estudiosos como Gary Habermans e J.P. Moreland, é um antigo credo cristão. Hanegraaff (2005, p. 56) diz que “os estudiosos de todos os naipes concordam que este credo pode ser datado de três a oito anos da própria crucificação.” Observe: três a oito anos; uma data recuadíssima!
As provas técnicas de que tal escritura trata-se de um antigo credo são as seguintes:
1 – As palavras entreguei e recebi são termos descritivos do tratamento rabínico da tradição santa, indicando que esta é uma tradição santa recebida por Paulo;
2 – Várias frases primitivas e antigas, pré-paulinas, são usadas (“os doze”, “ao terceiro dia”, “foi visto”, “pelos nossos pecados”, “ressuscitou”). Estas frases são bastantes judias e primitivas;
3 – O estilo poético é hebraico;
4 – O aramaico Cefas é usado; este era um modo antigo de referir-se a Pedro (McDowell e Wilson p. 192 citando J.P. Moreland).
Habermans e Flew (1987, p. 86), citando o filosófo Terry Miethe dizem:
“Muitos estudiosos do Novo Testamento destacam que uma das maneiras que sabemos [que 1 Coríntios 15:3-7] é declaração de credo é que parece ter estado em forma aramaica mais primitiva e também está em forma de hino. Isto significa que era grego estilizado, palavras não-paulinas e assim por diante, o que indica que pré-datava Paulo e era extensamente usado, provavelmente até usado e recitado em experiências de adoração como forma de adoração ou cântico ou hino ou declaração de credo, e era, portanto, reconhecido universalmente.”
Onde está o túmulo vazio nesse credo? Está exatamente em 1 Coríntios 15:4 que diz: “que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia”. Quando o apóstolo diz sepultado ele está afirmando que Jesus Cristo estivera realmente morto. Em seu túmulo, o corpo de Jesus Cristo descansava. Porém, por lá ficou por um curto espaço de tempo pois o próprio apóstolo afirma ter ele ressuscitado em corpo. A conexão entre os verbos  sepultar e ressuscitar no conjunto da frase não pode indicar o sepultamento de uma coisa e a ressurreição de outra. Até porque, no próprio contexto dessa passagem, Paulo fala de “soma” (v 35), corpo físico em grego, como aquele que será ressuscitado.
A palavra grega para “ressuscitou” é eghgertai que pode ser traduzida também por “levantar”. O que estava estirado, deitado no túmulo? O corpo de Jesus. Portanto, é elementar entendermos que o que levantou foi  Jesus em  seu corpo físico.
O fator importante que o antigo credo cristão citado por Paulo traz a baila é que o evangelho paulino não se baseia em uma revelação espiritual apenas, mas em eventos históricos sólidos. É bom que se diga não ter havido tempo para se criar uma lenda, pois elas requerem pelo menos duas gerações para ornarem os fatos históricos e, como já foi dito, o antigo credo cristão dista 3 a 8 anos da crucificação.
Ainda dando destaque ao uso das palavras “entreguei” e “recebi”, cabe aqui repetir o que disse Harold Risenfeld sobre elas:
“Com relação à natureza desta tradição judaica e sua transmissão, somos, por coincidência, relativamente bem informados. Mas o que justifica tirarmos várias conclusões sobre o cristianismo primitivo é o fato de a terminologia usada no processo judeu da tradição reaparecer no Novo Testamento…
Paralambanein, “receber”, heb. quibbel, indica o ato de imprimir uma tradição doutrinária confiada à pessoa, enquanto paradidomi, “entregar”, heb. masar, é o termo usado quanto à sua entrega a um determinado pupilo. A situação, como concebida aqui, não é a difusão vaga de narrativas, sagas, ou anedotas, como encontramos no folclore, mas a transmissão de material rigidamente transmitida, por parte de alguém que tem autoridade, para outrem especialmente escolhido para aprendê-lo… que foi passado deste modo, no que diz respeito ao conteúdo e forma, foi uma quantidade fixa de material… O pupilo ideal era aquele não perdia nada da tradição.” (citado por McDowell e Wilson, p. 190)
Dito essas coisas, podemos ter certeza de que Paulo conhecia o túmulo vazio, e tal conhecimento descansa em uma realidade histórica atestada por um o antigo credo cristão que “pode ser rastreado até às fases formativas da primeira igreja cristã” (Hanegraaff, 2005, p. 56).
Além de 1 Coríntios 15:4, 35 podemos ver também em Romanos, uma epístola escrita bem cedo por Paulo, que o apóstolo tinha a informação de que o túmulo estava vazio. No capítulo 8 versículo 11 ele diz:
“Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais…”
Note no verso acima que o escritor diz aos seus interlocutores que eles poderiam ter a esperança de que eles seriam vivificados da mesma maneira que fora Jesus quando da sua ressurreição. Tal esperança incluia uma transformação de seus corpos mortais. O uso do advérbio também indica que do mesmo modo como aconteceu com o corpo de Jesus em sua ressurreição, assim iria acontecer com os corpos deles. Ora, se os cristãos terão seus corpos mortais vivificados porque o de Jesus passou por tal experiência, conforme as palavras paulinas, é evidente que o apóstolo tinha o conhecimento de que o túmulo de Jesus Cristo estava vazio.
Está claro no escritos paulinos que o apóstolo por diversas vezes ocupa-se com a transmissão de informações históricas. E mais, estas informações são frequentemente reconhecidas pelos estudiosos como sendo mais antigas que os próprios escritos dele.
Finalmente, dizer que Paulo não conhecia o túmulo vazio é desconsiderar a presença deste no conteúdo do antigo credo cristão, porém, ele ali está; basta analisarmos a questão deixando de lado, o máximo possível, os nossos pressupostos. Também, provando que Paulo conhecia o túmulo vazio, apresentam-se  os textos bíblicos [1Co 15:4, 35 e Rm 8:11] que, por uma conexão exegética responsável, demonstram Paulo falando da ressurreição de Jesus Cristo como sendo corporal. Logo, reafirmo, Paulo conhecia sim o túmulo vazio.

 

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