Melodia, 28/10/2009
Pr Stênio Verde
Assalto ao Metro 123
Não gosto que ninguém me conte filme bom, e creio que você também. Mas vou contar pra você o filme Assalto ao Metrô, me perdoe, é por uma boa causa. Gosto muito de cinema, não chego a ser um cinéfilo mas aprecio bons filmes, sobretudo aqueles que me fazem refletir. Esta semana foi agradável pegar um cineminha com a família, gosto de tudo num cinema, a sala de espera, o anúncios dos próximos filmes, a pipoca quando o dinheiro dá e também é bom ficar no escurinho do cinema abraçadinho com a minha esposa.
Em Assalto ao Metro 123, Denzel Washington é Walter Garber, um funcionário do Metro de New York, cuja vida irá ser afetada devido ao sequestro de um metro. John Travolta é Ryder, o autor do crime, que, como líder de uma gangue de 4 pessoas altamente armadas, ameaça executar os passageiros que estão no vagão, a não ser que o resgate seja pago dentro de uma hora. Com a tensão a aumentar, Garber utiliza seu vasto conhecimento do sistema de Metro para despistar Ryder e salvar os reféns.
Descobri que filme não era propriamente um filme de ação, os diálogos, os personagens foram propositalmente escolhido para nos transmitir uma mensagem central. A corrupção generalizada da sociedade em todas as camadas sociais é o tema principal do filme. Ele procura nivelar por baixo a sociedade pós-moderna e denunciar sua aparente normalidade.
Inicialmente Ryder e seu bando são os únicos bandidos, mas a medida em que o filme se desenrola descobrimos que Garber, o alto funcionário do metrô, pressionado por Ryder, confessa que aceitou propina de uma empresa japonesa com o intuito de pagar a faculdade dos filhos, sua esposa nada sabe e o trata com injustiçado durante todo o filme. Um dos bandidos de Ryder era um funcionário do metrô que no passado havia sido preso. O prefeito da cidade resolve falar com Ryder e diante de todos é desmoralizado pelo bandido, um homem sem moral pra conversar com um bandido, um bandido de terno e gravada como tantos crápulas políticos que temos no Brasil.
Assim segue o filme revelando a realidade por trás das aparências, desnudando uma sociedade que está podre em toda a sua estrutura, o dinheiro vai comprando e corrompendo funcionários, empresários e políticos, é ladrão roubando ladrão o tempo inteiro.
O filme deixa uma pergunta ética no ar(condicionado): Quem são os verdadeiros bandidos? Os narcotraficantes ou quem alimenta o tráfico comprando drogas? Os piratas ou quem compra material pirateado? Os políticos ou os cidadão comuns que também são comprados? Os assaltantes de carro ou os compradores de peças de carros que foram roubados? O guarda rodoviário que pede propina ou o motorista que sede a pressão e dá.
Lamentavelmente o único herói do filme é propositalmente um figurante que resolve dar a vida para que outras pessoas do metrô não pereçam, ele aparece e desaparece esvaindo-se em sangue. Denzel Washington e John Travolta são os atores principais da corrupção, aquele mocinho que dá a vida é uma raridade, um anônimo, não é tido por herói na nossa sociedade pós-moderna, heróis são os espertalhões.
Interessante também é o fato de Rayder se identificar com Garber e não suportar o prefeito, Ryder diz ao Garber o quanto eles eram parecidos, eram ladrões de melhor estirpe e fica a idéia de que o prefeito de Nova York apesar da alta posição social era de mais baixa posição ética e moral. Creio que este sentimento acontece no Brasil, a sociedade brasileira ainda que corrupta e corruptora se vê como alguém melhor, alguém bem mais sincero que muitos políticos. Moralidade e ética não são valores em nossa atual sociedade.
As cenas finais são intrigantes, Garber hesita muito em matar Ryder talvez por ter de fato se identificado com ele, mas finalmente o executa com um tiro a queima-roupa. Fica a idéia de que o importante é matar o pior de todos os bandidos, aqueles mais atilados, mais violentos, aqueles que trazem “maior” prejuízo social.
Há uma compensação psicológica nesta cena do crime, um apaziguamento psicossocial depois da morte de Ryder, o mesmo que sentimos quando um grande traficante é morto numa favela carioca. Até a música do filme é mudada para passar a idéia de uma falsa paz. Assim a sociedade se sente melhor ao malhar o Judas social, o bode expiatória da corrupção e a vida segue sem nenhuma mudança estrutural.
No filme, após a morte de Ryder, Todos os demais seguem em frente, o prefeito que não precisou pagar o dinheiro do resgate e Garber volta pra casa refletindo sobre tudo e aos poucos esboçando no rosto um sorriso que logicamente não chega a ser de plena alegria. Tudo volta ao “normal”.
O filme é revelador quando refletimos sobre sua proposta, é um filmaço, um retrato social dos mais nítidos, um material para ser discutido em sala de aula, ou pelo menos na sala de estar.
Ele nos mostra o quão sem graça está o mundo, denuncia que o deus deste século é o dinheiro e com ele o status. A corrupção está em todos os lugares. A moda foi corrompida pelo dinheiro, a mídia se corrompe todos os dias pelo mesmo motivo. O mundo do futebol perdeu o brilho depois que tudo se tornou investimento, a política era muito mais fascinante quando não havia tantos ladrões no governo, as igrejas evangélicas eram muito mais singelas quando não havia a doutrina da prosperidade e impérios eclesiásticos.
A igreja também foi seqüestrada.
Tudo na igreja virou dinheiro. Agora estão falando em avivamento financeiro. Meu Deus do céu! Os pastores hoje são conhecidos não porque tem vida mas porque tem grana, as igrejas hoje cresceram numericamente pelo poder do dinheiro. O mundo da música evangélica também perdeu a graça, a música virou mercado. Tudo enfim na igreja está virando mercado.
A igreja está rica de dinheiro e pobre de espiritualidade.
Deixe de arrecadar uma nota preta pra ver se não é verdade?
Vós tranformastes minha casa de oração para todos os povos em covil de salteadores, disse Jesus.
Vejo o sorriso de Garber no rosto de muitos pastores.
Pr. Stënio Verde