Domingo, 05 de Setembro de 2010
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Melodia, 07/10/2009

Pr Zwinglio

Animais e Humanos de Estimação

Pr Zwinglio

Em seu livro Identidade, Zygmunt Bauman, citando um certo Andrew Morton,  fala sobre o hábito inglês de presentear as crianças inglesas no Natal com um cachorro.
Segundo Bauman, Morton diz que os cães deveriam “começar a reduzir a sua expectativa de vida de aproximadamente 15 anos para algo mais em sintonia com os breves instantes de atenção modernos: digamos, cerca de três meses.”
O texto diz ainda que o alto índice de pessoas que se livram de seus cães fazem isso com o propósito de “abrir caminho para outros cães, mais na moda.”
Na entrevista concedida ao jornalista italiano Benedetto Vecchi que deu origem a Identidade, ao tratar desse hábito inglês, Bauman estava respondendo à pergunta sobre a instabilidade dos relacionamentos interpessoais uma marca registrada dessa nossa líquida era moderna.
São muitas as preciosas reflexões sobre a liquidez dos relacionamentos pós-modernos impressas nas páginas 68 a 77.
Em minha leitura e releitura de tais reflexões não pude deixar de ir estabelecendo paralelos com a Igreja Evangélica  que, muito embora esteja inserida em um contexto social de relações fluidas, deveria, e, poderia, se assim desejasse, andar na contramão disso. No entanto, sobre o que vejo e sobre o que me é noticiado a realidade é bem outra.
No escopo da mensagem bíblica encontramos como orientação para a práxis cristã a necessidade da construção de relacionamentos profundos. Uma referência que trata disso de maneira intensa é Filipenses 2:1:
“Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões…”
A palavra sublinhada acima no grego é splagchna que pode ser traduzida por intestinos. O uso dessa palavra aqui trata do que é íntimo, interno, interior. Portanto, ao dizer entranháveis afetos o autor está pensando em afetos profundos marcados por intimidades que brotam das entranhas interiores (vale a redundância) e que em nada podem ser superficiais, fluídas, líquidas.
A construção de relacionamentos nesse nível na Igreja parece-me uma utopia (uso essa palavra no sentido do irrealizável mesmo), pois quem conhece mesmo essa entranhável expectativa bíblica? Quase ninguém. A prova disso são os relacionamentos (re)criados a partir de conchavos, de conveniências, de interesses egoístas…  Por conta disso,  o que é mais comum, além do que podemos imaginar,  é o estabelecimento de vínculos afetivos cada vez mais frágeis, descartáveis, fugazes… do tipo “seres humanos de estimação”.

Pense nisso!
 

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