Melodia, 22/09/2009
Pr Stênio
A Esquizofrenia, os Números e a Quebradeira Geral
Precisamos colocar os números de volta aos seus lugares. Ainda que tenham algum valor nas Escrituras, pois nela encontramos o livro de Números, estes numerais pertencem muito mais ao mundo da matemática, da física e de todas as ciências exatas do que a igreja. Voltemos a espiritualidade.
No filme “Uma Mente Brilhante” John Nash é um gênio da matemática que, aos 21 anos, formulou um teorema que provou sua genialidade e o tornou aclamado no meio onde atuava. Mas aos poucos o belo e arrogante John Nash se transforma em um sofrido e atormentado homem, que chega até mesmo a ser diagnosticado como esquizofrênico pelos médicos que o tratam. Porém, após anos de luta para se recuperar, ele consegue retornar à sociedade e acaba sendo premiado com o Nobel.
Para onde John Nash olhava via números, equações e teoremas matemáticos, ele via números em tudo, num raio de luz, numa pétala, num sorriso de uma criança. Os evangélicos modernos são esquizofrênicos, contudo com uma grande diferença, pois no caso de John Nash este transtorno escondia um gênio.
Antes de prosseguir é bom lembrar o que é este transtorno. Esquizofrenia é uma doença mental que afeta a capacidade da pessoa distinguir se as experiências vividas são ou não reais. Afeta ainda a capacidade de pensar logicamente, sentir emoções e sentimentos, e comportar-se em situações sociais.
Os evangélicos da Teologia da Prosperidade estão sofrendo dessa esquizofrenia.
Vejam se eu não estou certo no meu diagnóstico. Segundo os psiquiatras a esquizofrenia pode desenvolver-se gradualmente, tão lentamente que nem o paciente nem as pessoas próximas percebem que algo vai errado: só quando comportamentos abertamente desviantes se manifestam. Foi exatamente isso, os comportamentos delirantes e irreais que me levaram a diagnosticar a esquizofrenia evangélica.
Aqueles que estão sofrendo dessa esquizofrenia coletiva chamada de Teologia da Prosperidade também não conseguem diagnosticar o seu próprio mal.
A sintomatologia denuncia o mal, vou mencionar dois sintomas básicos. Os delírios que são crenças não verdadeiras extraídas das Escrituras onde as verdades passam a ter um significado diferente da proposta bíblica. E o outro sintoma são as alucinações que são falsas percepções mas com qualidade de uma verdadeira percepção. A esquizofrenia evangélica também faz com que o modo de ver, ouvir e sentir as coisas não reflitam a realidade.
Delírios e alucinações são sintomas fortes no meio evangélico. Vou dar alguns exemplos; conversões que nunca aconteceram que só servem de estatísticas, curas mentirosas, forjadas nos bastidores dos templos, visões de anjos que nunca apareceram, profecias que nunca se cumpriram e nem se cumprirão pois são engendradas nos corações dos falsos profetas, declarações de fé que a cidade é do Senhor Jesus, quando ainda não é, e uma série incontável de outras alucinações que para os sãos soam como mentiras mas que para o esquizofrênico é a pura verdade.
Os delírios e alucinações também podem ser encontrados em grandes cruzadas evangelísticas que custam uma barbaridade e que pouco ou quase nada contribuem para a evangelização, delírios em grandes eventos, alucinações em mídia de massa, tudo muito colossal, os evangélicos não enxergam as coisas nas suas devidas proporções.
Eu fui sondado para ser cidadão conquistense e a pessoa que me convidou me disse que eu receberia as chaves da cidade das mãos do prefeito e que aquele ato simbólico me daria autoridade nas regiões celestiais.
Declinei o convite. Primeiro porque penso que outros personagens conquistenses deveriam receber esta honra e também porque não queria alimentar esta alucinação no meio evangélico conquistense.
Os números são neutros, nada são em si mesmos, o problema está em quem deles se utiliza, a motivação por trás dos números pode ser positiva ou negativa. No caso da igreja evangélica percebemos uma forte inclinação negativa. Uma ênfase exagerada que só pode ser fruto de motivações espúrias.
Davi é um bom exemplo de alguém que caiu na tentação numérica. Satanás o impeliu a contar o povo de Israel. O texto de I Crônicas 21.1-8 é uma grande lição neste sentido, pois nos mostra que a ênfase numérica na espiritualidade é obra maligna contra a própria igreja.
Nós estamos encharcados desta mentalidade numérica e nem nos damos conta do quanto estamos sendo afetados. Satanás se levantou contra a igreja evangélica e seus líderes caíram na idolatria dos números.
A eclesiologia hoje foi afetada pela matemática e pela física quântica. Estudamos a história da igreja nas Escrituras com a calculadora em mãos.
Se a bíblia diz que eram doze os discípulos, o número doze salta das páginas para nossa mente aritmética, o número 12 fica enorme aos nossos olhos e nasce então uma técnica de crescimento (numérico) chamada G12.
Outro teólogo-matemático ao ler a história da igreja primitiva e descobre nela cinco (05) Propósitos e uma outra formula de multiplicação de discípulos é forjada.
Há um irmão em minha igreja dono de uma pizzaria, eu estive na inauguração e lá ouvi que aquela loja estava em fase experimental, se desse certo, a Bit Express será reproduzida através do sistema de franquias para todo o Brasil e quem sabe para o mundo.
O mesmo acontece com a igreja dos cinco ou dos doze, suas lojas principais passam um tempo em caráter experimental e então suas franquias são vendidas para o resto do mundo. É lucro certo, é pura matemática, eles dominaram a fórmula do sucesso eclesial.
Basta apenas que o futuro sócio-pastor siga algumas normas, faça uso de uma estatística sócio-geográfica para ter uma prévia de quantos clientes em média vão freqüentar a loja regularmente. O clientelismo é fundamental neste processo, conhecer o cliente, saber os gostos musicais, analisar a forma como se vestem, definir o público alvo e uma série de dados que serão transformados em estatísticas que vão nos dizer se naquele lugar específico nascerá uma igreja de sucesso.
Fidelização é a palavra de ordem.
Tudo isso é muito bonito a primeira vista, de fato atrai multidões de pessoas que se tornarão também em números que por sua vez aumentarão o número de dízimos e ofertas.
Hoje a tarde, estava assistindo a TVE a respeito de um documentário sobre a proliferação das casas das Lans em todo o Brasil. O documentário foi feito numa favela e uma mulher disse que por não haver espaço para relacionamentos, para que a comunidade interaja de forma lúdica o divertimento estava restrito a três estabelecimentos: o boteco, a igreja e Lan House. O boteco tira o dinheiro do pai, a igreja tira o dinheiro da mãe e a Lan House tira o dinheiro da mulecada. Assim todos se divertem. A igreja passou a ser mais um comércio, um lugar de trocas, as pessoas são meros produtos nas prateleiras.
A nova mania numérica é abrir templos-comerciais em todas as ruas.Minha cidade tem pouco mais de 300 mil habitantes e quinhentos e tantos templos. Dei carona a uma irmã da igreja estes dias e fiquei admirado, enquanto o carro se movimenta eu lia: Supermercado preço bom, ao lado se lia, igreja pentecostal vale quanto pesa, Barbearia de Chico Abençoado, Igreja Universal do Evangelho Cósmico, Sapataria Coluna e firmeza da verdade, Comunidade do Deus que vive, é só pagar para ver, Supermercado Shalom, Igreja vara de Moisés, funerária vai-com-Deus...
O comércio cresceu muito.
Bom os números menores na Bíblia perderam o valor, somente os número expressivos, de três dígitos pra frente, um dígito não faz sucesso.
Um texto que não tem valor é aquele: “Onde estiverem dois (2) ou três (3) aí estarei no meio deles”. Para eles Jesus deve ter errado, ele deve ter pensado em 200 ou 300, não é possível.
Aquela parábola da centésima ovelha não dá lucro. O pastor deixa as 99 e vai atrás de uma única ovelha. Qual é o pastor de mil ovelhas que tem tempo hoje para umazinha desgarrada?
Mas voltando ao texto onde Davi enumera Israel eu quero fazer alguns apontamentos breves.
1 – Ao meu ver essa ênfase, essa idolatria numérica tem origem no coração de Satanás. Não é uma ênfase no coração de Jesus. Não estou tirando a responsabilidade dos líderes e colocando sobre Satanás, o que estou dizendo é que para o negócio dar certo tem que haver parceria.
2 – O avivamento Matemático de nossos dias visa incitar líderes espirituais, como Davi, a se aliarem a Satanás, homens de Deus consagrados caem na armadilha e passam a ser aliados de seus planos malévolos.
3 – Um outro perigo é que a idolatria dos números tem uma roupagem evangelística e missionária para que os incautos não percebam as reais motivações do pacote eclesiástico. Observe a Grande Comissão de Davi quando ele diz:
IDE, ENUMERAI A ISRAEL!
Não é Ide e pregai, é ide e enumerai, ide e contai, ide e computai para que mostremos a todos a força do nosso império eclesiástico.
Parece uma ação missionária, tem roupagem evangelística mas é do Diabo.
Quem vai dizer que não é? A motivação parece tão boa, mas é ai que mora o perigo.
Joabe adverte Davi dizendo: “O Senhor acrescente ao seu povo, cem vezes tanto”
Ele percebeu algo, que sensibilidade, ele percebeu a motivação diabólica de Davi e o corrigiu. como faltam nestes dias pastores e líderes como Joabe. Tem mais Davi do que Joabe em nosso dias.
Davi representa o número, o cifrão, os dígitos nos dois bancos, o da igreja e das agências bancárias, a fórmula matemática, o orgulho de dirigir um império.
Joabe representa o bom-senso, a sensibilidade, a razão das coisas, a motivação correta e a soberania de Deus no que tange ao número de membros
Em Atos vemos que números na igreja era soberania de Deus: “O Senhor acrescentava os que iam sendo salvos” diz o texto.
A mesma coisa que Joabe disse a Davi.
Mas Davi não escutou, a matemática falou mais alto, os números são sempre muito eloqüentes, somos seduzidos pela oratória dos resultados e do pragmatismo, daí a nossa surdez a qualquer voz dissidente, a qualquer amigo que nos advirta.
Joabe conhecia bem Davi e apesar de saber que ele era um homem espiritual percebia o pastor de Israel não está acima de qualquer suspeita, e por isso perguntou: “Por que procura isto o meu Senhor?”
Até homens espirituais tomam decisões desastrosas para o rebanho, decisões que inicialmente são boas e inquestionáveis, mas que depois matarão a fé de milhares. Davi não enxergou o pecado em suas cores reais e por isso povo foi destruído.
Enquanto o homem quer somar e multiplicar para se orgulhar, Deus quer diminuir para humilhar.
A minha previsão é que esta ênfase, mais cedo ou mais tarde, e creio que já esta acontecendo, vai gerar uma quebradeira geral, vidas que foram tratadas como números e cifrôs terão a sua fé destruída pela impessoalidade do sistema.
Isso tudo vai trazer sobre a igreja uma praga.
Que Deus tenha misericórdia da sua igreja.
Stênio de Araújo Verde
20 de setembro de 2009