Melodia, 27/08/2009
Pr Stênio Verde
Teologia da Prosperidade! e a oração?
Texto: Jó 21.13-15: -"Na prosperidade gastam os seus dias e num momento descem a sepultura. E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos. Quem é o Todo-Poderoso para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?"
Creio que todos nós fomos afetados pela teologia da prosperidade, tanto aqueles que acreditam nela, quanto aqueles que não se declaram adeptos dela.
Esta teologia afetou igrejas, denominações e pessoas. Nenhuma outra força doutinária arrastou a igreja para uma outra direção nestes últimos vinte ou trinta anos como esta.
A teologia da Prosperidade é um divisor de águas, a igreja de maneira geral mudou muito desde que abraçou tal ensino. Cresceu igual a rabo de cavalo, pra baixo e não pra cima, pro alto, a igreja não pensa mais nas coisas do alto e sim nas coisas que são aqui da terra, onde a traça corroi e os ladrões minam e roubam.
O pior é que a traça e os ladrões estão nos templos.
A igreja atual perdeu a sua maior identidade, seu maior distintivo - a sua espiritualidade.
Ela vendeu o seu direito de primogenitura por um prato recheado de lentilhas.
O neopentecostalismo é a vertente doutrinária que de fato crê de corpo, alma e espírito nesta doutrina, mas não nos enganemos, os pentecostais já começam a paquerar com tal movimento e já temos pastores pentecostais de renome casados de papel passado com a nova ideologia.
Até o pentecostalismo histórico, sobretudo formado pelas igrejas Assembléias de Deus e outras está com os sintomas da gripe letal.
O movimento pentecostal está se desfazendo, o negócio agora não é mais ser cheio do Espírito Santo e falar em línguas, agora o avivamento é ser cheio de grana e esperar o avivamento financeiro que o Morris Cerullo profetizou no programa do Silas Malafaia, para os últimos dias e usar a língua não mais como dom divino, mas para pedir, para mentir, enganar enriquecer e construir impérios ministeriais.
Agora sim cabe a pergunta que fizeram no dia de Pentecostes: “Não estão embriagados estes que receberam o dom da grana e falam em línguas financeiras?”
Pedro me responderia: ”Sim! Eles são alcoólatras. Perderam a sobriedade, o juízo!
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Não pensem os tradicionais e históricos de outras denominações que o vírus está contaminando apenas o movimento pentecostal.
Talvez nós sejamos a pior versão da teologia da prosperidade. Uma versão mal-acabada e mascarada sob o véu da tradição.
Nós não fomos apanhados por ela pela via da teoria, digo da dogmática, digo ainda da ideologia como normalmente acontece e sim por outra forma de contágio, pela via da práxis, do modus vivendi.
Em termos de vivencia não nos diferenciamos dos demais que dizem crer piamente em tal doutrina, somos tão materialistas quanto eles, porque o nosso materialismo recebe uma compensação psicológica devido ao fato de “não crermos” nessa tal doutrina.
Isso chancela a nossa ganância, e nosso talão de cheques e cartões de crédito nos denunciam. Somos piores que a Universal do Reino de Deus e as demais versões piratas do Edir Macedo.
O Edir é muito mais sincero.
Os que “não crêem” em tal doutrina estão em maior perigo, pois descansam no fato de não pertencerem a uma denominação ou igreja que abraça tal doutrina, mas isso é um ledo engano.
As igrejas históricas e tradicionais estão sofrendo muito, mas muito mesmo, reagem a mesma gripe de forma diferente dos demais, apresentam sintomas distintos e como praticam a TDP mas não confessam isso abertamente e seus pastores resistem a implantação de pacotes embrulhados pela TDP, tais crentes sofrem de uma esquisofrenia sem precedentes históricos.
Pela falta de um evangelho compulsório que lhes ofereça uma contra-partida, seus membros estão cada vez mais estranhos, descompromissados, frios, sem vida de oração, sem coração, sem entranhas, sem, sem...
Os pastores tradicionais e históricos, bem, os pastores estão numa enrascada, numa encruzilhada, eles começam a se ver como um fracasso, sem resultados visíveis, aumentam seu servilhismo a igreja na tentativa de que algo aconteça e nada ou quase nada...
São poucos os pastores que escapam ao fracasso ou ao sucesso.
As igrejas da TDP reagem de forma diferente. Sabe aquele cara gordo com uma aparência de saudável que todos comentam.
Pois é tenho mas notícias, o médico disse que ele está com câncer no baço. Robusto, inchado, de um inchaço bonito, o rosto chega a ser rosado, plástico, um sorrizo bacana, mas é só inchaço. Estética!
Os históricos ficam magros, esqueléticos, com o rosto chupado, queixudos, sem beleza alguma.
Os demais ficam gordos, encorpados, bonitos com um sorrizo redondo. Mas ambos estão sofrendo com a mesma doença.
Instalou-se em nós uma crise enorme, por um lado não cremos na doutrina da prosperidade, mas por outro nós a praticamos quase que inconsciëntemente, quase como alguém que dirige um carro e não se dá conta de que está usando o volante, os pedais e as marchas.
Nosso estilo de vida nos denuncia e talvez sejamos os mais hipócritas que aqueles que conscientemente abraçam tal doutrina.
Porque dizemos não dar crédito a tal ensinamento, contudo ele está tão enraizado em nós que não percebemos que nós também “gastamos os nossos dias na prosperidade”, como nos diz o livro de Jó.
A teologia da prosperidade veio como um tufão, revirando tudo, revirando a agenda da igreja, ela promoveu uma inversão de valores nunca antes vista na história da igreja.
O vírus se instalou não apenas de forma individual, mas sobretudo de forma institucional, a igreja com Propósitos, o G12 e outros pacotes internacionais são na verdade versões administrativas que nasceram dentro de tal teologia. A Universal é a única versão tupiniquim da teologia da prosperidade que faz sucesso, e assim como as demais, ganhou o mundo. Ela tem uma formula tão boa e tão eficaz como as demais franquias além mar de ganhar pessoas e dinheiro.
O pacote da prosperidade da Igreja Universal é diferente dos demais, ele é uma franquia mais fechada, pra entrar neste sistema de franquia, você tem que levar a marca da Universal. Nas demais versões isso não é necessário. Os pacotes internacionais são mais flexíveis e permitem que qualquer denominação revenda seus produtos.
É sucesso garantido!
Lógico, as franquias vem pra reafirmar que a teologia é boa.
Fica difícil ser uma voz contrária.
A prova está aí.
Os templos estão cheios e os recursos se multiplicam.
Quem é o doido que vai contestar?
Todos dançam em volta do bezerro de ouro.
Doido é quem desce do monte e quebra as tábuas da lei na cabeça desse pessoal.
O pragmatismo se instala de forma totalmente enganadora.
É a música da prosperidade que faz a dança na fogueira das vaidades.
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O avesso do avesso, do avesso, do avesso de Caetano Veloso é a mais nova canção da igreja.
“Buscai primeiro o Reino” disse Jesus.
Mas nós dizemos: “Busquemos as coisas” e a espiritualidade nos será acrescentada.
A espiritualidade é agora aquela parte que está sendo acrescentada a teologia da grana e das benesses. As demais coisas que estão sendo acrescentadas são a orações esporádicas, a baixa freqüência aos cultos públicos, os compromissos medíocres com as atividades e valores da igreja, a leitura superficial das Escrituras e tantas outras coisas que fazemos na tentativa de dizermos a nós mesmos que estamos buscando o reino dos céus como prioridade, mas isso não é verdade; fomos atingidos, a prosperidade assaltou a nossa espiritualidade, nos derrubou, pisou em nosso pescoço e desferiu um tiro fatal em nosso peito, a morte é apenas uma questão de tempo.
Que fizeram os pastores diante de tamanha calamidade, na tentativa de reanimar o corpo de Cristo estendido no “funéreo chão”?
Pacotaços, impactos e estatísticas foram providenciados somente para dar uma sobrevida a igreja e dizer que ela está muito bem.
Os pastores se tornaram paramédicos.
A teologia da prosperidade trouxe consigo uma série de prejuízos a vida cristã.
Desaprendemos a viver. Os nossos dias são gastos puramente em coisas materiais, viver passa a ser sinônimo de ter. As riquezas espirituais são desprezadas ou passam a ser um meio de conquistar coisas materiais. Onde estão os homens e mulheres de oração?
Essa teologia vai nos levar ao fim da linha. Esse estilo de vida vai aos poucos nos afastando de Deus lentamente, imperceptívelmente arrastando a igreja para aquele lugar onde não haja mais desejo por Deus: “E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos. É como se dissessem: “Que queremos mais, temos tudo!”. Eu hoje não tenho dúvida que a teologia da prosperidade foi concebida no inferno. Ela é uma das maiores armas de Satanás contra a igreja.
Deus já não é um ser desejado por Ele mesmo, e sim pelo que ele pode oferecer.
Pra fechar a tampa do caixão me permita dizer que a maior prova de que a doutrina da prosperidade se instalou de norte a sul está na oração. “Quem é o todo-poderoso?”, eles perguntaram. Eu respondo: todos aqueles que crêem e/ou vivem debaixo da teologia da ganância. Estes tomaram o lugar de Deus. Quanto mais grana mais todo-poderoso é o crente. Agora é a minha vez de dizer: vocês mataram Deus. Foi bom que isso acontecesse, pois este não é o Deus das Escrituras.
A teologia da prosperidade é idolatria, é a “imagem de escultura” que a igreja mais venera.
A pior idolatria hoje é a ideológica.
Novas versões do BEZERRO DE OURO continuam sendo fabricadas, cada vez mais sofisticadas, cada vez mais atraentes e sedutoras, só nos resta fazer o que fez Moisés diante deste quadro imoral, quebrar as tábuas da Lei e derreter o bezerro de ouro.
Quebrar as tabuas da lei, porque eles não precisam dela, pois a lei condena o bezerro de ouro.
Derreter o bezerro de ouro da teologia da prosperidade não é tarefa tão fácil.
“Somente ao teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto”
“Filhinhos, fugi da idolatria”
“Temos tudo, estamos fartos”
“E não sabes que és pobre, cego e nu.”
“Se hoje ouvirdes a sua voz não endureçais os vossos corações”
Vitória da Conquista, 27 de agosto de 2009.
Pr. Stênio de Araujo Verde